Ao fim de um dia tudo se resume a isto: o passado cresceu mais um dia e o futuro diminuiu mais um. Mais um pedaço de futuro atirado para o caixote. Todos os dias a mesma rotina, os mesmos sítios, as mesmas caras, as mesmas vozes, os mesmos sons... Dias clonados numa cópia quase perfeita e repetidos até ao infinito.
Sinto-me como um figurante de um filme que assiste apaticamente sem se aperceber que há uma história que se repete constantemente. Por vezes vê algo a passar, por vezes não vê, mas na maior parte das vezes apenas se apercebe de que tudo e vagamente igual, todas as coisas no mesmo sítio, os mesmos sons a encher os ouvidos e que quase que consegue ignorar, as mesmas formas e cores a entrar pelos olhos no mesmo padrão repetitivo e entediante. O tédio supremo da vida olha-nos de cima, do seu trono aborrecido e chato sem se aperceber o quanto enjoa...
Acordo no mesmo quarto todos os dias, a mesma cara no espelho todos os dias, a rua é a mesma todos os dias, os vizinhos são os mesmos todos os dias, o meu carro tem a mesma cor todos os dias, o caminho para o trabalho é o mesmo todos os dias, o local de trabalho é o mesmo todos os dias, o trabalho é o mesmo todos os dias, os colegas de trabalho são os mesmos todos os dias, e acabo por voltar para a mesma casa todos os dias para dormir na mesma cama todos os dias.
Ate as estrelas à noite que parecem mudar lentamente todos os dias, ao fim de um ano voltam de novo a ser as mesmas num ciclo repetitivo anual. Tal como as estrelas nem todos os ciclos são diários e passam despercebidos. O tédio do fim-de-semana que se repete semanalmente, o salário que nem paga metade do trabalho que faço num ciclo mensal, os aniversários que nos lembram que estamos cada vez mais perto da senilidade num ciclo anual. A vida é um constante repetir de uma sequência de factos vulgares e acções sem sentido. Até quando conhecemos alguém, essa pessoa nos lembra de alguém que já conhecemos antes, nem que seja de nós próprios...
E os ciclos repetem-se, todos os dias na esperança que aconteça algo distinto, diferente, um gesto, uma palavra, um novo som, uma pessoa que não nos recorde de ninguém, um novo padrão de cores, um novo caminho, algo que quebre a rotina, que pelo menos inicie um outro ciclo, um diferente e novo, algo que indique que realmente acordamos num novo dia, numa outra história, uma com um final diferente... Uma com um final feliz, como num filme...
Por vezes pergunto-me como era a vida antes do primeiro ciclo se completar…