Sentei-me, podia ver tudo à minha volta, o silêncio da noite engolido pela azáfama da cidade.
Respirei e desejei, chorei e por fim sorri. Sabia que nada daquilo era o meu mundo, mas dava-me imenso prazer poder desfrutar de tudo aquilo. Deitei-me em cima da cama, mais macia do que nunca, o toque das mãos dela é inexplicável, laços de cetim envolvem-nos a alma.
Por fim... suspiro...
Abro os olhos e tudo desapareceu. Já não havia mais as mãos dela nem os laços de cetim, apenas ficaram as nossas almas, soltas em espaço incerto.
Levantei-me, os passos lentos faziam com que o chão se transformasse em areia, todo o meu corpo lutava contra aquilo... Não queria... O meu sonho tinha de ser verdade.
Pus-me em frente à janela, o cheiro da cidade invadia-me as narinas; a prostituição ressuscitava de novo, o sonho teimava em esmorecer, o meu corpo começava a fraquejar. Abri a janela e respirei fundo, dentro de tanta saturação encontrei o ar puro. Fechei pesadamente os olhos, tinha de voltar ao sonho. Então, inesperadamente, o meu corpo ressuscitou, saiu voando pela janela fora, tinha me transformado.
Podia voar... conseguia voar...
Sentia-me imensamente agradecido...
Senti-me realizado, desejado e imaculado, continuei voando até lugares desconhecidos. De súbito, o ar começou a ficar poluído, todas as estrelas que serviam de luz transformaram-se em nada.
O céu que servia de candelabro às estrelas quebrou. As estrelas caíram, e a Lua ficou imóvel, perdeu o brilho e a magia.
Enquanto tudo morria, eu voltei à janela, não podia continuar num sonho onde os astros morriam.
Abri os olhos...
As estrelas continuavam suspensas no seu maravilhoso candelabro, o céu estava realmente mais belo do que nunca e a Lua continuava imóvel. Mas a magia retornou e o brilho também. Segundos depois descobri que as estrelas eram apenas pedrinhas brilhantes, fruto de uma grande pedra, a Lua, que descansa no leito do infinito céu.
Afinal a janela sempre esteve fechada. Apenas voei com o pensamento, mas voei e sorri.
Finalmente tinha conseguido voar...